Era uma terça-feira à noite, umas 22h30, quando uma amiga minha — cabeleireira, atendia em casa há dois anos — me mandou uma mensagem no WhatsApp: “Acho que vou deixar pra lá. Tá caro demais abrir empresa.” Ela tinha pesquisado no Google, caído em três sites diferentes com informações contraditórias, e concluído que abrir o MEI custava centenas de reais. Não custava. Na verdade, custava zero.
O problema real não era o custo de abertura — era a desinformação que circula como se fosse verdade. Tem contador que cobra pra abrir MEI (e não deveria), tem site que vende “serviço de cadastro” como se fosse obrigatório, tem grupo de Facebook que jura que precisa de advogado. Minha amiga não estava com medo do processo. Ela estava com medo de uma cobrança que não existe. E esse é o ponto que quase ninguém deixa claro: abrir o MEI é gratuito por lei, feito pelo próprio governo, e dá pra fazer em menos de 15 minutos.
1. Por que o MEI é realmente gratuito — e quem tenta te cobrar por isso
A abertura do MEI não tem nenhuma taxa. O processo é feito no Portal do Empreendedor, que é mantido pelo governo federal, e não existe nenhum documento, nenhum reconhecimento de firma, nenhum registro extra obrigatório. O CNPJ sai na hora, o certificado de registro também. Custo: R$ 0,00.
O que existe — e aí mora a confusão — são serviços opcionais de contabilidade ou assessoria que algumas pessoas contratam depois da abertura. Isso é uma escolha, não uma exigência. Contador é útil em algumas situações, mas para abrir o MEI, você não precisa de nenhum intermediário.
Levantamentos do Sebrae mostram que o Brasil tem mais de 15 milhões de MEIs ativos, e a grande maioria abriu o cadastro sozinha, pelo computador ou pelo celular, sem pagar nada a ninguém. Se alguém está te cobrando pra fazer esse processo, pode recusar — educadamente ou não, dependendo do seu humor.
- Abertura pelo Portal do Empreendedor: grátis
- Emissão do CNPJ: grátis
- Certificado de condição de MEI (CCMEI): grátis
- Consultoria ou assessoria contábil: opcional, paga à parte
2. O que você precisa ter em mãos antes de começar
Para abrir o MEI, você precisa basicamente de três coisas: CPF regular na Receita Federal, título de eleitor (ou outro dado do seu cadastro no governo) e um endereço — pode ser sua casa, não precisa ser comercial na maioria dos casos.
Se você tem conta no Gov.br — o portal de serviços do governo federal — o processo fica ainda mais rápido porque boa parte dos dados já está preenchida automaticamente. Se não tem, vale criar antes. Leva uns cinco minutos e vai ser útil pra muita coisa além do MEI.
Você também vai precisar definir qual atividade vai exercer. Isso é feito pelo código CNAE — uma lista de atividades econômicas. Cabeleireira, manicure, eletricista, vendedor ambulante, motorista de aplicativo, designer freelancer: cada um tem um código. O próprio portal tem um buscador onde você digita o que faz e ele sugere as opções.
Um detalhe que pega muita gente: o MEI tem limite de faturamento anual de R$ 81.000 (em 2026). Se você fatura mais do que isso, precisa de outro tipo de empresa. Mas pra quem está começando ou trabalhando de forma autônoma, esse limite costuma ser mais do que suficiente.
3. O passo a passo real — do zero ao CNPJ em menos de uma semana
Na prática, você consegue abrir o MEI no mesmo dia. Menos de uma semana é o prazo seguro considerando qualquer imprevisto técnico ou dúvida de atividade. Veja como fica:
Dia 1: crie ou acesse sua conta no Gov.br
Acesse gov.br e crie uma conta com CPF e dados básicos. Se já tem, pule essa etapa. Quanto mais completo seu perfil (com biometria ou reconhecimento facial), mais rápido o processo do MEI.
Dia 2: acesse o Portal do Empreendedor
O endereço oficial é gov.br/mei. Clique em “Quero ser MEI” e siga o fluxo. O sistema vai pedir login pelo Gov.br, confirmar seus dados pessoais, pedir o endereço e a atividade econômica.
Dia 3 (ou no mesmo dia 2): escolha a atividade correta
Use o buscador de atividades do próprio portal. Se a sua atividade não aparecer, pode ser que ela não seja permitida para MEI — algumas profissões regulamentadas, como medicina e advocacia, não podem ser abertas como MEI. Mas a maioria das atividades autônomas comuns está disponível.
Dia 4: conclua o cadastro e baixe o CCMEI
Depois de confirmar tudo, o sistema emite o CNPJ e o Certificado da Condição de Microempreendedor Individual (CCMEI) na hora. Salva esse PDF. É ele que você vai usar pra abrir conta bancária para MEI, emitir nota fiscal e comprovar sua situação para clientes e fornecedores.
Dias 5 a 7: organização pós-abertura
Aqui entra a parte que pouca gente menciona: configure o pagamento do DAS (Documento de Arrecadação do Simples Nacional), que é a mensalidade do MEI. O valor varia por atividade — comércio e indústria pagam em torno de R$ 72 por mês em 2026, serviços um pouco mais. Esse pagamento garante INSS, direito a benefícios e a regularidade do CNPJ. Pode configurar débito automático direto no portal do MEI.
4. Um caso concreto: a semana da minha amiga cabeleireira
Voltando à Carla — nome fictício, mas a história é real. Depois daquela mensagem de 22h30, sentei com ela por videochamada no dia seguinte. Em 40 minutos, ela tinha CNPJ em mãos. Não porque eu sou especialista, mas porque o processo realmente é assim.
O único travamento foi na escolha do CNAE. Ela não sabia se se enquadrava como “cabeleireira” ou “salão de beleza”. Pesquisamos juntos, identificamos o código correto para quem trabalha de forma autônoma sem estabelecimento fixo, e seguimos. Isso levou uns 15 minutos a mais — não foi drama nenhum.
Na semana seguinte, ela abriu uma conta digital para MEI (várias fintechs oferecem isso gratuitamente), emitiu a primeira nota fiscal para uma cliente que pagava por PIX e pedia comprovante para reembolso de plano de saúde, e configurou o débito do DAS. Tudo isso sem pagar nada além da mensalidade obrigatória do INSS.
O que não funcionou: ela tentou acessar o portal pelo celular mais velho que tinha, e o navegador deu problema. Precisou usar o computador de uma amiga. Pequeno obstáculo, solução simples.
5. O que não funciona — e você provavelmente já viu alguém recomendar
Tenho opinião formada sobre algumas abordagens que circulam por aí e que mais atrapalham do que ajudam:
1. Contratar alguém para abrir o MEI por você. Não faz sentido. O processo é feito pelo próprio interessado, é gratuito, e qualquer pessoa com acesso à internet consegue fazer. Pagar alguém para isso é jogar dinheiro fora — literalmente.
2. Esperar “a hora certa” para formalizar. Ouço muito isso: “vou abrir quando tiver mais clientes”, “quando tiver mais estável”. Funciona ao contrário. Você consegue clientes maiores, emite nota, acessa crédito e tem acesso a benefícios sociais depois de formalizar. A formalização é o que abre portas, não o contrário.
3. Usar tutoriais desatualizados do YouTube. O portal do MEI muda de layout e fluxo com certa frequência. Tutorial de 2021 ou 2022 vai te confundir mais do que ajudar. Prefira o próprio portal, que tem guia atualizado, ou o canal oficial do Sebrae.
4. Achar que MEI resolve tudo para sempre. MEI tem limite de faturamento, tem restrições de atividades e não permite sócios. Se o negócio crescer, vai precisar migrar. Isso não é defeito — é o design do produto. Só não caia na ilusão de que é uma solução permanente para qualquer tipo de negócio.
6. Três coisas que muita gente não sabe sobre o MEI
Você pode ter até um funcionário registrado. O MEI pode contratar um empregado com carteira assinada, pagando o salário mínimo ou o piso da categoria. Não é comum, mas muita gente não sabe que isso é possível.
O CNPJ do MEI dá acesso a crédito com condições melhores. Grandes bancos nacionais e fintechs oferecem linhas de crédito específicas para MEI, com taxas menores do que o crédito pessoal. Isso sozinho já justifica a formalização para quem precisa de capital de giro.
MEI inativo pode ser cancelado automaticamente. Se você abrir e não pagar o DAS por muitos meses, o CNPJ pode ser baixado. Não é imediato, mas acontece. Se abriu, mantenha em dia — ou cancele formalmente se não for usar.
7. Quanto tempo você vai gastar de verdade
Sem enrolação: o processo leva entre 15 e 45 minutos, dependendo da sua familiaridade com o portal e da clareza sobre a atividade que vai exercer. A parte mais demorada costuma ser a escolha do CNAE certo — não porque seja difícil, mas porque muita gente quer ter certeza antes de confirmar.
Se travar em algum ponto, o Sebrae tem atendimento gratuito por chat e por telefone. As prefeituras de algumas cidades também têm pontos de apoio ao MEI. Você não precisa resolver tudo sozinho se não quiser.
Se você chegou até aqui e ainda não abriu o MEI, aqui estão três ações pequenas pra fazer agora — não “essa semana”, não “quando der”:
- Agora: acesse gov.br e veja se sua conta já existe. Se não tiver, crie. São cinco minutos.
- Hoje ou amanhã: pesquise no buscador do Portal do Empreendedor qual CNAE corresponde à sua atividade. Só pesquise — não precisa confirmar nada ainda.
- Essa semana: com CNAE em mãos e conta no Gov.br ativa, abra o MEI. O processo inteiro cabe em uma tarde.
A minha amiga levou dois anos postergando por causa de uma cobrança que nunca existiu. Não precisa ser assim com você.

